O oceano que o Brasil celebra no Ano Novo: a relação dos nossos rituais de passagem com a cultura oceânica
No Brasil, a virada do ano tem um toque especial. Há algo que faz muita gente enfrentar horas, às vezes dias, de estrada só para começar o ano diante do mar. Cidades como o Rio de Janeiro, especialmente a praia de Copacabana, transformam-se em epicentros dessa celebração. Não é por acaso que o Brasil aparece na “wish list” de tantos estrangeiros quando o assunto é Réveillon.
E nossa virada é, de fato, única. Aqui, vestir branco é quase regra. Pulamos sete ondas. Fazemos pedidos acompanhados de rituais como comer 12 sementes de romã; e tem quem aposte em lingerie colorida ou até coloque dinheiro no sapato para atrair riqueza.
Essas práticas criam uma experiência singular, divertida e cheia de significado e, na praia, essa simbologia continua.
O ritual de pular sete ondas, hoje difundido em todo o país, tem origem na Umbanda, marcada pela forte influência Iorubá. O número sete está associado a Exu, às sete linhas de trabalho (fé, amor, conhecimento, justiça, lei, evolução e geração) e aos sete planos espirituais da religião. Cada onda simboliza um pedido, amor, saúde, proteção, prosperidade e há regras como nunca virar as costas para o oceano, em sinal de respeito.
O uso do branco também tem raiz cultural profunda. Na tradição Iorubá, a cor simboliza pureza, paz, clareza espiritual, sabedoria e respeito, sendo associada a Obatalá, divindade criadora.
Grande parte das tradições que hoje parecem naturais aos brasileiros nasceu de códigos culturais que atravessaram o Atlântico na diáspora e foram preservados por comunidades que, ao longo de séculos, transformaram o litoral em um espaço simbólico de resistência, memória e espiritualidade. Com o tempo, esses rituais foram incorporados por pessoas de diferentes crenças, regiões e classes sociais, tornando-se parte da identidade cultural do país.
Em praticamente todas as praias brasileiras, fiéis também dedicam oferendas a Iemanjá. Nos últimos anos, cresce a consciência de que deixar objetos no mar pode desrespeitar a própria divindade e poluir o ecossistema. Por isso, muitos praticantes têm adotado o hábito de recolher ou devolver as oferendas ao final do ritual, unindo espiritualidade e sustentabilidade. Afinal, poluir o mar seria profanar o sagrado. Essa visão revela um elemento singular de cultura oceânica: o entendimento de que o oceano nos influencia e nós o influenciamos, em dimensões espirituais e ecológicas.
Quando milhares de brasileiros viram o ano de frente para o mar, é um sintoma de uma expressão profunda de cultura oceânica que precisa ser melhor entendida, respeitada e valorizada. Esses rituais revelam uma relação histórica, espiritual e coletiva com o oceano que precisa ser reconhecida como um conhecimento tradicional valioso e incorporado às políticas de conservação e à chamada economia azul.

Refletir sobre a virada do ano sob a ótica da cultura oceânica nos leva a uma pergunta central: como manter viva essa relação simbólica com o mar em um momento em que o oceano enfrenta pressões ambientais sem precedentes? Poluição, acidificação, mudanças climáticas, sobrepesca e até planos de mineração em alto mar formam um conjunto de desafios que exige proximidade, diálogo e engajamento da sociedade. Levar esses temas ao público de forma simples, inspiradora e acessível é essencial; e a espiritualidade é uma das portas para isso.
Ao mesmo tempo, 2025 se consolidou como um ano-chave para o debate global sobre o oceano. A Conferência da ONU em Nice trouxe avanços importantes na implementação do Acordo do Alto Mar (BBNJ) e ampliou, durante a COP30 em Belém, as discussões sobre integrar o oceano às agendas climática e ambiental.
Nesse contexto, ganhou força o debate sobre o fortalecimento do Conhecimento Tradicional Associado (CTA) como elemento vital para uma governança oceânica verdadeiramente sustentável. Incorporar ao debate o conhecimento de povos indígenas e comunidades tradicionais, construído em uma relação direta, espiritual e cotidiana com o mar, é fundamental para ampliar a visão sobre o oceano e incluir dimensões ainda negligenciadas.
Valorizar esses saberes imateriais deveria ser prioridade na chamada economia azul, sobretudo num país como o Brasil, onde cultura, território e oceano são dimensões profundamente interligadas.
Em um ano decisivo como 2025, fica claro que a conservação do oceano não é apenas uma questão científica ou econômica; o aspecto cultural também é vital. O Brasil carrega saberes vivos que fazem parte da nossa identidade e sustentam o modo de vida de muitas comunidades. São códigos culturais expressos ao longo de todo o ano, em diferentes territórios, mas que ganham uma força simbólica especial no Réveillon. Esses saberes e rituais precisam ocupar um lugar central nas agendas da sustentabilidade marinha, para que não caiamos em soluções puramente tecnocráticas, que ignoram as pessoas, os territórios e as relações culturais com o mar.
Ana Vitória Tereza de Magalhães é consultora internacional em cultura oceânica e economia azul. Assessora governos e instituições multilaterais em estratégias de educação oceânica, políticas marítimas e projetos internacionais. Doutoranda na Universidade dos Açores, pesquisa a interseção entre patrimônio cultural imaterial e o oceano. Participou da criação do programa global Escola Azul na UNESCO e contribuiu para as estratégias de cultura oceânica da Década do Oceano. Atua também como mentora de mulheres na economia azul, apoiando lideranças femininas em inovação e impacto social ligado ao mar.