Nem tubarão, nem água-viva: a maioria dos acidentes é provocada por ouriços-do-mar

Comum no litoral brasileiro, "pinaúna” –ou “pindá” (nomes populares para o ouriço-do-mar preto)– é o principal responsável pelos incidentes

Nem tubarão, nem água-viva: a maioria dos acidentes é provocada por ouriços-do-mar
Cerca de metade das lesões no mar associadas a algum animal são causadas por um ouriço-do-mar, que desempenha papel-chave no equilíbrio marinho / Imagem: Cebimar/USP

*Por Juliana Di Beo

Quem aproveita o verão para pegar uma praia costuma se preocupar com os tubarões, especialmente em trechos do litoral pernambucano conhecidos por esse risco. Longe dos holofotes, porém, os verdadeiros protagonistas dos atendimentos médicos nas férias são os ouriços-do-mar: silenciosos e inconspícuos, esses animais causam muito mais incidentes do que os grandes predadores.

De acordo com pesquisa recente de Vidal Haddad Junior, professor do Departamento de Dermatologia e Radioterapia da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp), para cada 1.000 pacientes atendidos em prontos-socorros de cidades litorâneas, 1 paciente é vítima de um animal marinho.

Cerca de 50% dos animais associados a lesões são ouriços-do-mar, enquanto acidentes com animais urticantes (caravelas e medusas) representam 1/4 das ocorrências, proporção idêntica àquela causada por peixes venenosos ou ferroadores (bagres e arraias).

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Vale destacar que esse perfil de trauma e envenenamento ocorre em banhistas; o perfil de lesões em pescadores não é o mesmo.

Retrato dos acidentes com animais marinhos no litoral norte paulista

A pesquisa analisou vítimas de acidentes com animais marinhos no município de Ubatuba (SP) ao longo de 24 meses. Ao todo,133 pacientes sofreram lesões causadas por animais marinhos, incluindo águas-vivas e corais, peixes venenosos e peçonhentos e ouriços-do-mar. Destes, 62 indivíduos foram feridos por ouriços-do-mar, sendo a maioria (77,4%) dos traumas em homens.

Segundo relatos dos pacientes, a maioria das lesões ocorreu por pisoteio de colônias de ouriços que habitam piscinas naturais entre as rochas. Nem sempre esses animais estão visíveis no leito marinho, ainda mais quando a água está turva, o que é comum na época de verão, quando as chuvas são mais frequentes.  

Um método comum para remover espinhos é a escarificação superficial no ponto de perfuração com agulhas hipodérmicas grossas (esquerda) e o método testado no estudo com pinça de relojoeiro (direita) / Imagem: Reprodução do artigo/ Vidal Haddad Jr 

Com o objetivo de prevenir e tratar lesões de modo menos doloroso, o estudo selecionou 20 pacientes (do grupo de 62 feridos por ouriço) para testar o método com uma pinça de relojoeiro nº 10. Os resultados foram animadores: o uso da pinça facilitou a remoção dos espinhos maiores, tornando o procedimento menos agressivo comparado à técnica tradicional. 

A análise detalhada dos espinhos permitiu identificar a espécie Echinometra lucunter, conhecida como pinaúna, pindá ou ouriço-do-mar preto, como a principal responsável pelos incidentes; apesar de não ser venenosa, ela é a espécie mais encontrada em nossa costa devido à sua preferência pelas zonas de arrebentação, onde o contato com banhistas é mais frequente. 

O pesquisador também identificou as praias de Ubatuba onde houve prevalência de acidentes. A Praia Grande liderou com 80% dos casos, de acordo com o pesquisador; isso se deve a sua vasta extensão, ao número de turistas e à presença de colônias de ouriços-do-mar nos costões.

Cerca de 10% dos 62 acidentes ocorreram na Praia do Tenório e os 10% restantes em diversas praias, incluindo a Praia do Alto, Itamambuca, Perequê-Açu, Ilha Anchieta, Saco da Ribeira e Praia do Félix. 

Breve nota sobre ouriços-do-mar

Os ouriços do mar são animais exclusivamente marinhos e pertencem ao filo Echinodermata (conhecido também como equinodermos, que significa pele recoberta por espinhos).

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Filo (do grego phylum) é uma categoria taxonômica fundamental na Biologia. Ele agrupa organismos com plano corporal, estrutura e história evolutiva semelhantes, como Chordata (vertebrados) ou Arthropoda (insetos e crustáceos). É uma das unidades mais abrangentes, definindo grandes grupos com características físicas e genéticas compartilhadas. A hierarquia obedece à seguinte ordem: Reino > Filo > Classe > Ordem > Família > Gênero > Espécie.

O filo Echinodermata contém mais de 7 mil espécies, incluindo as estrelas-do-mar, pepino-do-mar e bolachas-da-praia. Existem pouco mais de 1.000 espécies de equinóides (classe Echinoidea, que inclui os ouriços-do-mar e bolachas-da-praia) das quais aproximadamente 100 estão no Brasil.

Apesar de não intimidarem pelo tamanho, a verdadeira defesa dos ouriços-do-mar reside na “armadura” que protege seu corpo arredondado. São centenas de espinhos afiados como agulhas, compostos por carbonato de cálcio –o mesmo mineral presente no mármore, em casca de ovos e conchas.

Por serem animais discretos e de movimentos lentos, eles acabam funcionando como armadilhas invisíveis para banhistas desavisados, cujos pés são os alvos mais frequentes em áreas de costões rochosos, próximos às partes rasas da praia.

Ouriços são espécie-chave para o equilíbrio marinho

Os ouriços são considerados espécie-chave para o equilíbrio ecológico marinho. Auxiliam no controle de algas, na reciclagem de detritos e no crescimento de corais.

Ouriços-do-mar como a pinaúna também têm importância farmacológica, por apresentarem compostos com potencial para o desenvolvimento de novos medicamentos, como anticoagulantes e antitumorais. 

Engana-se quem vê no ouriço-do-mar apenas uma ameaça. Para além de suas contribuições ecológicas, ele é reverenciado na cultura alimentar no litoral Norte da Bahia.

Em Arembepe, o animal é uma iguaria tão forte que a região celebra há uma década o 'Festival da Pinaúna', uma prova de que o sabor compensa o risco dos espinhos.

Recomendações em caso de acidente com ouriços-do-mar

Eis abaixo algumas recomendações para casos de acidentes com ouriços-do-mar:

  • Identificar a espécie predominante nas lesões (venenosa ou não) 
  • Mapear as praias onde as espécies são mais frequentes na região de estudo (topografia e proximidade de banhistas a colônias de ouriços-do-mar em rochas e lagoas de maré).
  • Substituir o método com agulha (mais doloroso) pela pinça nº 10 (de relojoeiro), pois indica ser menos doloroso e traumático para os pacientes. Ou buscar métodos menos agressivos de extração dos espinhos, sabendo que os fragmentos menores geralmente são expelidos por reações inflamatórias locais.
  • Cuidados com espinhos maiores que estão associados a infecções bacterianas e granulomas de corpo estranho se não forem removidos. Os granulomas são um problema e requerem excisão total para resolução completa.

A criação de folhetos informativos e a afixação de cartazes em praias com colônias de ouriços-do-mar poderiam prevenir esse tipo de acidente e deveriam ser consideradas pelas prefeituras das cidades litorâneas.

Leia o artigo científico na íntegra (em inglês)

Injuries caused by sea urchins on the Brazilian coast: advances in the development of therapeutic methods and prevention of wounds
ABSTRACT Background: Sea urchins inhabit rocky areas and lagoons near tourist bathing sites.…

O artigo "Injuries caused by sea urchins on the Brazilian coast: advances in the development of therapeutic methods and prevention of wounds" tem como autor principal o professor da Faculdade de Medicina da Unesp, Vidal Haddad Jr.

O texto foi publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, em 2026.