Ferramenta gratuita rastreia embarcações de mineração no fundo do mar em tempo real
Webinar do Pulitzer Center apresentou métodos para investigar governança oceânica de tratados internacionais a registros de lobby
Uma embarcação chinesa percorreu 25 mil quilômetros partindo da China em direção ao Atlântico Norte a partir de dezembro de 2023. Ao longo do trajeto, o navio visitou áreas de exploração do fundo do mar concedidas pela Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) a institutos de pesquisa da França, da Polônia e da Rússia. A movimentação foi rastreada por Elizabeth Claire Alberts, jornalista da Mongabay e fellow do Ocean Reporting Network do Pulitzer Center, usando uma ferramenta de acesso gratuito chamada Deep-Sea Mining Watch.
"Eles têm esses polígonos das áreas da ISA e também compilaram uma ótima lista de embarcações envolvidas em trabalhos de mineração em águas profundas, para que os jornalistas possam acessar e ver o que as embarcações estão fazendo nessas áreas. É gratuito, basta criar uma conta, tudo gratuito, tudo aberto, e é realmente fantástico", disse Alberts durante o 1º webinar da série Investigating the Ocean, promovida pelo Pulitzer Center.

A ferramenta é um desdobramento do Global Fishing Watch, plataforma já conhecida no jornalismo investigativo oceânico, e ainda está em desenvolvimento. Para Alberts, sua relevância vai crescer:
"Essa ferramenta também será muito importante nos próximos anos, caso a mineração em águas profundas se torne realidade."
Assista no canal do Pulitzer Center no YouTube.
Vácuo regulatório em aceleração
A reportagem de Alberts sobre a frota chinesa de mineração de fundo do mar expõe uma das questões centrais do webinar: quem regula essa atividade e com quais regras?
A estrutura jurídica de referência é a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS), em vigor desde 1994 e ratificada por 168 países. O texto define zonas marítimas, garante liberdade de navegação e estabelece o conceito de que o leito marinho é "patrimônio comum da humanidade".
A UNCLOS também criou a ISA, organização sediada em Kingston, Jamaica, que é amplamente reconhecida como a única reguladora legal da mineração de fundo do mar em águas internacionais.
A ISA emitiu 30 contratos de exploração, mas nenhum de exploração comercial. A China é o país com o maior número de contratos de exploração (5 no total). O problema, segundo Alberts, está nas brechas do próprio sistema:
"Na verdade, os navios não estão proibidos de entrar nas áreas ISA de outras nações e realizar pesquisas. Os Estados podem ir a essas áreas que não lhes pertencem e podem até coletar uma quantidade limitada de minerais do fundo do mar para suas pesquisas."
O que é proibido é coletar minerais com fins de prospecção ou exploração, ou testar equipamentos de mineração em áreas de terceiros.
"Mas já se pode ver que existe muita zona cinzenta", disse Alberts.
A situação se complica com a posição dos Estados Unidos, que nunca ratificaram a UNCLOS. Em 1980, o país criou sua própria legislação –o Deep Seabed Hard Mineral Resources Act (DSHMRA)–, supervisionada pela NOAA. Em abril de 2025, um decreto executivo do governo Trump acelerou ainda mais o setor.
"Uma ordem executiva é uma lei? Na verdade, não. Mas tem força de lei? Sim", disse Alberts.
Como resultado, a NOAA passou a processar pedidos com maior rapidez, e o Bureau of Ocean Energy Management trabalha em mudanças regulatórias paralelas.
A empresa canadense The Metals Company (TMC) está no centro dessa tensão. Ela detinha contratos de exploração pela ISA, mas decidiu solicitar licenças para as mesmas áreas pelos Estados Unidos, o que, segundo Alberts, pode constituir uma violação de suas obrigações com a ISA:
"A ISA ainda não tomou uma decisão sobre o que fazer, mas está investigando."
A ISA, por sua vez, ainda não finalizou o código de mineração (o conjunto de regras que ditaria como a extração comercial pode ocorrer em águas internacionais).
"O que estamos vendo é essa nova indústria que pode começar muito em breve e sem regras concretas estabelecidas", resumiu Alberts.
Notebook LM e o mapa de quem responde pelo quê
A segunda parte do webinar foi conduzida por Jelter Meers, da equipe de dados e pesquisa do Pulitzer Center, que apresentou um repertório de ferramentas para jornalistas que investigam governança oceânica em qualquer jurisdição.
O ponto de partida, segundo Meers, é construir o que chamou de "mapa de responsabilidades": identificar quais agências governamentais respondem por cada setor (pesca, navegação, proteção marinha, mineração).
Para jurisdições desconhecidas, a ferramenta Perplexity (descrita como "a chat with the internet") pode gerar um panorama inicial, desde que suas respostas sejam verificadas em fontes primárias.
Para lidar com o volume de documentos (tratados internacionais, legislações nacionais, planos de gestão costeira), a equipe do Pulitzer Center recomenda o Notebook LM, ferramenta do Google que permite carregar documentos selecionados pelo próprio jornalista e fazer perguntas diretamente a esse material.
“A magia disso é que permite que você carregue seus próprios documentos, documentos que você verificou, que você diz: 'Esta é uma fonte confiável, eu confio nesta informação.' Ele não vai e olha todas as bobagens da internet, apenas olha os documentos que você instruiu”, explicou a mediadora do webinar.
O limite prático é de 50 fontes por notebook, mas é possível abrir múltiplos notebooks para cobrir diferentes ângulos de um mesmo tema.
Google dorking para jurisdições opacas
Para encontrar documentos oficiais em países com pouca informação disponível online, Meers apresentou o método de Google dorking, combinação de operadores de busca para localizar arquivos específicos em domínios determinados.
O exemplo usado foi a pesca de atum-rabilho na Líbia. Com acesso limitado a sites governamentais e sem domínio do árabe, o ponto de entrada foi a Comissão Internacional para a Conservação do Atum do Atlântico (ICCAT), da qual a Líbia é membro.
Buscando dentro do domínio da organização com filtros de tipo de arquivo, foi possível encontrar atas de reuniões de março de 2026 contendo a cota de pesca atribuída à Líbia para aquele ano, o nome e os contatos do comissário libiano junto à ICCAT, e informações sobre o sistema de monitoramento de embarcações exigido pelo órgão.
A partir de uma lista sugerida por um modelo de linguagem, o jornalista executa os comandos e filtra os resultados relevantes. Uma busca com extensão CSV, por exemplo, revelou uma lista de embarcações inativas autorizadas a pescar atum-rabilho na Líbia, com os nomes das empresas proprietárias, abrindo nova linha de investigação.
Lobby e pessoas politicamente expostas
A última seção do webinar, também conduzida por Meers, abordou o rastreamento de lobbying e de pessoas politicamente expostas (PEPs) no setor oceânico.
O caso de referência foi o da TMC, que apareceu nos arquivos do Lobbying Disclosure Act (LDA) dos Estados Unidos: a empresa havia contratado o Vogel Group para fazer lobby em Washington, com foco em segurança nacional e em legislações específicas como o National Defense Authorization Act.
“Elizabeth percebeu que eles meio que mudaram seu discurso de vendas e começaram a mencionar a defesa”, disse Meers ao contextualizar a investigação publicada pela Mongabay.
Para o rastreamento de lobby nos EUA, Meers indicou o site OpenSecrets e o portal do LDA. Para a União Europeia, o EU Transparency Register e o LobbyFacts.eu (este último mais navegável, mas com dados que podem ter até um ano de defasagem em relação ao registro oficial).
O exemplo europeu envolveu a Parlevliet & Van der Plas, uma das maiores empresas de pesca do mundo. Uma busca no LobbyFacts.eu mostrou que a empresa tinha como cliente a firma G Plus (posteriormente rebatizada Portland), que em 2016 fez lobby junto ao gabinete do vice-presidente da Comissão Europeia especificamente sobre organizações regionais de gestão pesqueira.
Para países sem registros públicos de lobby, Meers sugeriu pedidos de acesso à informação, monitoramento de anúncios políticos em plataformas de mídia social e, quando os dados não existem, a construção de uma base própria:
"Algo que costumamos dizer no jornalismo investigativo e na análise de dados é: se os dados não existem, você os cria."
Sobre PEPs, Meers apresentou o caso de Gideon Sarpong, fellow do Ocean Reporting Network que investigou a penetração de políticos no setor pesqueiro de Gana. Após receber uma lista incompleta por via de pedido de acesso à informação, a equipe do Pulitzer Center cruzou dados de gestores e acionistas das maiores empresas pesqueiras do país com listas de pessoas politicamente expostas.
"Descobrimos que muitos deles estão, na verdade, envolvidos em ministérios que regulamentam o mesmo setor, o que não é divulgado, e isso é imoral, senão ilegal."
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*O webinar reportado acima é o 1º de uma série de 4. Os outros encontros previstos abordam o rastreamento de embarcações e de empresas, formas de seguir o dinheiro (follow the money) e direitos trabalhistas no setor oceânico.
