Mudanças climáticas estão reduzindo o oxigênio nos rios em todo o mundo

A desoxigenação é uma das consequências do aquecimento da água e afeta a pesca. Rio Amazonas causa preocupação especial.

Mudanças climáticas estão reduzindo o oxigênio nos rios em todo o mundo
Um homem descarrega peixe fresco de um barco em Puerto Nariño, Colômbia, às margens do Rio Amazonas, em 7 de setembro de 2025 / Imagem: AP/Fernando Vergara, Arquivo

O fato principal

O aquecimento global está causando a perda gradual de oxigênio nos rios, ameaçando peixes e outras formas de vida aquática, segundo um estudo publicado nesta sexta-feira (15.mai.2026) na revista Science Advances.

Pesquisadores na China usaram satélites e inteligência artificial para rastrear e analisar os níveis de oxigênio em mais de 21.000 rios em todo o mundo desde 1985. Descobriram que os níveis de oxigênio caíram, em média, 2,1% desde então.

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Embora possa parecer pouco, o efeito é cumulativo e, se continuar ou se intensificar, rios no leste dos Estados Unidos, na Índia e em outras regiões tropicais poderão perder oxigênio suficiente até o final do século para sufocar alguns peixes e criar zonas mortas.

Os princípios básicos da química e da física ditam que a água mais quente retém menos oxigênio, explicam os cientistas. A água mais quente, consequência das mudanças climáticas causadas pela ação humana, libera mais oxigênio na atmosfera.

Se a taxa de perda de oxigênio continuar no ritmo atual, os rios do mundo perderão, em média, mais 4% de seu oxigênio até o final do século, e em alguns casos perto de 5%, segundo o estudo.

É nesse ponto que a perda de oxigênio (chamada desoxigenação) se torna problemática para os peixes e para as pessoas que dependem dos rios, de acordo com o autor principal do estudo, Qi Guan, cientista ambiental da Academia Chinesa de Ciências em Nanjing.

Surgimento de mais zonas mortas

ARQUIVO - Um pescador caminha até seu barco em Santa Rosa, Peru, uma ilha no rio Amazonas, em 17 de agosto de 2025 / Imagem: AP/Ivan Valencia, Arquivo

Os cientistas temem que os níveis de oxigênio nos rios possam cair tanto a ponto de surgirem zonas mortas, como já ocorreu no Golfo do México, na Baía de Chesapeake e no Lago Erie. Nessas áreas, os peixes têm dificuldade para respirar e acabam morrendo.

“A desoxigenação é um processo muito lento. Se persistir por um longo período, o impacto negativo afetará os ecossistemas fluviais”, disse Guan.
“O baixo nível de oxigênio pode causar uma série de crises ecológicas, como o declínio da biodiversidade, a degradação da qualidade da água e talvez a morte de alguns peixes”, acrescentou ele.
Peixe fresco em Puerto Nariño, Colômbia, às margens do Rio Amazonas, domingo, 7 de setembro de 2025 / Imagem: AP/Fernando Vergara, Arquivo

O geocientista Karl Flessa, da Universidade do Arizona, que não participou do estudo, afirmou em um e-mail que a perda de oxigênio nos rios significa “um futuro com mais zonas mortas e malcheirosas (hipóxia), especialmente durante ondas de calor”.

Alguns rios estão em tão mau estado que “uma pequena mudança pode levá-los à zona de perigo”, disse Flessa.

“Se o seu local de pesca favorito ficar muito quente, os níveis de oxigênio diminuirão e não haverá peixes para pescar”, afirmou ele.

Índia, leste dos EUA e Amazônia são pontos críticos

Turistas fazem um passeio de barco no início da manhã no rio Ganges em Varanasi, Índia, em 16 de março de 2026 / Imagem: AP/Channi Anand, Arquivo

No início deste século, o rio Ganges, na Índia, extremamente poluído, perdia oxigênio cerca de 20 vezes mais rápido que a média global, segundo o estudo.

Mesmo com aumentos de "moderados" a "altos" nas taxas globais de emissão de dióxido de carbono (algo que, inclusive, não é o cenário mais improvável), prevê-se que rios no leste dos Estados Unidos, no Ártico, na Índia e em grande parte da América do Sul percam cerca de 10% de seu oxigênio até o final do século, mostrou a análise.

Guan disse que se preocupa especialmente com rios tropicais, como o Amazonas, no Brasil. Desde 1980, o número de dias com zonas mortas na Amazônia aumentou em quase 16 dias por década, segundo um estudo realizado no ano passado.

Navios ancorados perto da Ponte da Baía de Chesapeake, em 18 de março de 2026, em Maryland / Imagem: AP/Julia Demaree Nikhinson, Arquivo

O professor de Hidrologia Marc Bierkens, da Universidade de Utrecht, na Holanda, afirmou que um estudo realizado por ele e seus colegas no ano passado mostrou que o estresse de oxigênio nos rios do mundo aumentou em 13 dias a cada década e a ocorrência de zonas mortas aumentou em quase 3 dias por década desde 1980. Com o aquecimento global, esses números devem aumentar ainda mais, disse Bierkens, que não participou do estudo chinês.

O estudo de Guan identificou diversas causas para a perda de oxigênio nos rios do mundo, incluindo a poluição por nutrientes provenientes de fertilizantes e escoamento urbano, além da construção de barragens e problemas relacionados ao fluxo e ao vento. Mas quase 63% do problema se deve ao aquecimento da água, segundo o estudo.

A ecologista e biogeoquímica da Universidade Duke, Emily Bernhardt, que não participou do estudo, afirmou:

“Com o aquecimento dos rios, torna-se cada vez mais fácil para os mesmos problemas de poluição de antes causarem hipóxia e anóxia [perda total de oxigênio] mais severas, mais duradouras ou mais disseminadas”.
“A redução da poluição da água é mais importante do que nunca e será mais difícil com o aquecimento dos rios”, concluiu Bernhardt.