Pela primeira vez, tecnologias oceânicas serão o tema central de relatório especializado da ONU-Clima

O documento em questão é o CTPR (Climate Technology Progress Report). O diplomata Pedro Ivo Ferraz da Silva comentou, em entrevista ao Correio Sabiá, sobre o crescimento do oceano na agenda global.

Pela primeira vez, tecnologias oceânicas serão o tema central de relatório especializado da ONU-Clima
Relatório deve ser divulgado durante a COP31, em novembro deste ano, na Turquia / Imagem: Divulgação

O diplomata do Itamaraty Pedro Ivo Ferraz da Silva, presidente do TEC (Comitê Executivo de Tecnologia) da ONU-Clima, confirmou em entrevista ao Correio Sabiá que, pela 1ª vez, o relatório anual de referência do setor terá o oceano como tema central, uma virada na agenda multilateral que coincide com o crescimento da pressão científica por mais atenção ao papel do mar na emergência climática.

"O oceano vai crescer cada vez mais na agenda da Convenção do Clima e na agenda internacional como um todo", disse o diplomata do Itamaraty, que assumiu a presidência do TEC em abril de 2026.
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O oceano cobre mais de 70% da superfície do planeta, absorve entre 80% e 90% do calor gerado pelo aquecimento global e retém de 20% a 30% das emissões de carbono da atmosfera. Apesar disso, segue ausente nos grandes debates sobre tecnologia climática.

O documento em questão é o CTPR (Climate Technology Progress Report), publicação produzida anualmente (eis a edição anterior) em parceria com o PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente). A edição de 2026 abordará tanto as oportunidades quanto os riscos das tecnologias relacionadas ao oceano.

Assista à entrevista completa no canal do Correio Sabiá no YouTube.

Pedro Ivo citou o aproveitamento energético a partir das marés e outras formas de geração renovável de base marinha. Mas há também um outro lado que o relatório não pretende ignorar: os experimentos de geoengenharia oceânica, que buscam aumentar artificialmente a capacidade dos mares de absorver carbono.

"Existem alguns experimentos tecnológicos que têm voltado a incrementar, aumentar a capacidade absortiva dos oceanos de carbono, que são um pouco preocupantes", disse.

O relatório deve ser lançado durante a COP31, prevista para novembro deste ano, na Turquia.

Comunidades pesqueiras entram na equação tecnológica

Céline Phillips, vice-presidente do TEC, ao lado do diplomata Pedro Ivo Ferraz da Silva, presidente do comitê / Imagem: Divulgação

Para comunidades costeiras e pesqueiras ao redor do mundo –muitas delas já impactadas por empreendimentos de energia renovável como parques eólicos offshore–, a discussão sobre inovação climática é também uma questão de sobrevivência e reconhecimento.

A COP30, realizada em Belém, marcou um avanço inédito nesse sentido: pela 1ª vez, uma decisão formal da conferência climática mencionou tecnologias indígenas.

O chamado Programa de Implementação Tecnológica de Belém reconheceu, ao lado das tecnologias de ponta, aquelas que surgem das próprias comunidades, chamadas de tecnologias grassroots, como soluções legítimas e muitas vezes mais eficientes exatamente por estarem enraizadas nas necessidades locais.

"A ideia é justamente olhar para tecnologias que são concebidas localmente para endereçar problemas locais e mostrar que essas tecnologias muitas vezes são as mais eficientes, porque estão inteiramente alinhadas com as necessidades de uma comunidade", explicou Pedro Ivo.

Além disso, o TEC prepara para este ano um produto específico sobre sistemas de alerta precoce baseados em dados e engajamento comunitário, um reconhecimento de que as comunidades não são apenas receptoras de tecnologia, mas produtoras ativas de conhecimento sobre os impactos que sofrem.

"As comunidades têm um papel não apenas de envolver tecnologias, mas também de indicar impactos, de chamar a atenção e agregar informação que possa chamar a atenção das autoridades públicas sobre impactos adversos, seja de eventos climáticos, seja também de infraestruturas", afirmou o diplomata.

Sul Global: receptor ou protagonista da transição?

O contexto mais amplo em que esse debate se insere é o da distribuição desigual das tecnologias climáticas entre Norte e Sul Global. Pedro Ivo disse que a transição energética corre o risco de repetir o padrão histórico de concentração, com países ricos como provedores de soluções e países em desenvolvimento como consumidores.

"Há uma percepção, um temor de que realmente a transição para uma economia de baixo carbono cometa os mesmos pecados, os mesmos erros que a Revolução Industrial, para justamente criar essa disparidade entre provedores e consumidores de tecnologia", disse.
Sul Global não pode ser apenas receptor de tecnologias climáticas, diz presidente de comitê da ONU
Pedro Ivo Ferraz da Silva, diplomata brasileiro que preside o Comitê Executivo de Tecnologia da Convenção do Clima, defende postura ativa dos países em desenvolvimento para dominar as inovações da transição energética

A saída, segundo ele, passa por uma postura ativa dos países do Sul –o mesmo movimento que permitiu à China, em poucas décadas, deixar de ser consumidora para se tornar líder global em tecnologias renováveis.

Para o Brasil, isso significa insistir no processamento doméstico de minerais críticos, fortalecer sistemas nacionais de inovação e garantir que empreendimentos estrangeiros gerem capacidade tecnológica local, não apenas royalties.


*Entrevista realizada pelo Correio Sabiá. Pedro Ivo Ferraz da Silva é diplomata de carreira, coordenador de temas científicos e tecnológicos do Departamento de Clima do Itamaraty e presidente do TEC desde abril de 2026.